Outro dia escrevi que tempo de
eleição serve como reflexão para nos situarmos enquanto cidadãos e agora
passada as eleições é tempo de reorganizar a capacidade humana de conviver em
harmonia com ideias e posições contrárias, como verdadeiros cidadãos.
A vitória da presidenta Dilma foi
legítima, porque vivemos em uma democracia e a maioria absoluta de votos
garantiu que após todo o pleito eleitoral foi ela a transmitir maior confiança
aos eleitores, mesmo que isso não vá de encontro à opinião de uma parcela da
sociedade. Claro que aquele que não se elege fica frustrado, decepcionado,
sentimentos próprios da disputa e que a ela deveria ficar limitados. Mas não é
o que tem acontecido já há algum tempo em nosso país. Os ânimos andam
exaltados, pessoas que se dizem
esclarecidas, bem formadas e de berço perderam a capacidade de raciocínio e se
deixam teleguiar pela grande mídia e pelas redes sociais que espalham ódio,
preconceito e falta de respeito pela democracia. Confundem liberdade de
expressão com discurso de ódio, embora se saiba que o exercício dessa liberdade
não deve afrontar o direito alheio, como a honra e
a dignidade de uma pessoa.
Na
Copa já se viu uma amostra da capacidade de disseminar sentimentos embasados no
vazio que se multiplica em determinadas camadas de nossa sociedade, camadas
essas que podem pagar acima de dois mil reais por um ingresso para falar
palavras de baixo calão a chefe maior da nação. O vazio e a indigência de tais
cidadãos se tornaram gritantes para o mundo diante do silêncio da presidenta.
Triste
ver cidadãos sendo rotulados de bovino, mal informado, por terem opiniões
diferentes a respeito do mesmo assunto, triste assistir a deputados
recém-eleitos querer separar o estado de São Paulo do resto do país por se
achar em um nível superior aos demais, triste vermos políticos e a mídia
querendo com uma linha diagonal separar o país em vermelho e azul, mais triste
ainda é ver a população desse lindo e diverso Brasil dar retumbante disseminação
a tudo isso na sociedade.
Estarrecedor
é ver jogador de vôlei com título de
embaixador do esporte brasileiro no exterior, bancado por bolsa do governo
federal, usar de baixo nível para se referir á presidente do seu país. Eu
aprendi que quando algo não me é agradável, eu tenho a opção de dizer não quero.
Por que então o referido jogador assinou contrato para receber a bolsa por mais
doze meses? Meramente por causa do dinheiro do povo brasileiro? Alias os
jogadores de vôlei que o digam, dinheirinho abençoado esse do povo brasileiro,
já que são patrocinados pelo Banco do Brasil, empresa pública.
Estranho
ver cidadãos criticando cotas para estudantes de escolas públicas nas
universidades federais, prouni, pronatec, bolsa família, luz para todos, minha
casa minha vida, mais médicos, ciências sem fronteiras, entre outros e sendo
atendidos por tais programas, pois, se não me engano não é só o nordeste que é
beneficiado.
A
julgar pelo que bradam por aí a presidenta foi reeleita pelo nordeste por causa
do assistencialismo do bolsa família, então ela seria vitoriosa em São Paulo também, já que
o estado está em 2º lugar em recebimento de bolsa família. Estudantes de universidades
federais deveriam estar todos com ela, já que estudam com dinheiro público, de
impostos pagos por todos os brasileiros, inclusive os mais pobres. Médicos e
estudantes de medicina revoltadinhos por causa do mais médicos, mas, com cada
estudante desse curso o governo gasta sete mil reais por mês e ao final do
curso não vemos os médicos recém-formados se dispor a trabalhar em prol de
comunidades carentes pelo menos por algum período para compensar a oportunidade
que tiveram. Claro que todos esses estudantes entram na faculdade por seus
méritos, mas são bancados pelos esforços de muitos brasileiros.
Por
isso não acredito nessa divisão política do país que estão querendo implantar
na nossa mente. Só para ilustrar vejam de onde vieram os votos da Presidenta
Dilma: Dos 54.501.118 votos que ela recebeu 55% vieram das regiões sudeste, sul
e centro-oeste e os outros 45% das regiões norte e nordeste. Portanto, não há
região no Brasil onde haja unanimidade, os dois candidatos foram votados em
todas as regiões, embora, havendo alternância de números em determinadas
regiões. Em um país democrático as opiniões divergem, não existe um lado
vermelho e um lado azul, há sim, uma mistura que compõe a democracia. E, ela
foi realizada nestas eleições, tanto pelos eleitores da Dilma quanto pelos
eleitores do Aécio e também por aqueles que não quiseram votar, cada um
exercendo o seu direito.
Ao
aceitarmos tudo que nos é imposto sem nenhuma análise, ao nos colocarmos como
inimigos de nossos conterrâneos por causa da região em que vivem, não seremos
apenas eleitores que por ventura perdeu uma eleição, mas antes seremos derrotados na vida, mesmo que
ainda possuamos recursos financeiros, possamos frequentar as melhores
universidades, os melhores restaurantes, tenhamos as melhores roupas, possamos
viajar mundo afora, adquirir conhecimentos e nos apropriar das mais diversas
culturas, se não reconhecermos nossas raízes e não as respeitarmos não teremos
berço, seremos indigentes na pior concepção da palavra.
Sabemos
que em termos de riquezas e recursos as regiões do Brasil não iguais e temos
sorte de viver em uma região rica, o sudeste, nem por isso o nosso olhar para
as regiões menos favorecidas deve ser de desprezo e ódio. Não se pode fazer
política rica para os ricos e pobre para os pobres. É preciso sim de justiça
social, é preciso permitir aos mais pobres
se humanizar, crescer e desenvolver, pois um país ciente de sua
diversidade e com um povo digno se enriquece acolhendo as diferenças.
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